Há 20 anos, o torneio de Roland Garros, o segundo Grand Slam da temporada, contava com a presença de grandes tenistas, incluindo Gustavo Kuerten. Na terceira rodada, ele enfrentaria nada menos que Roger Federer.
Naquele período, Kuerten estava classificado como número 30 do ranking da ATP e lidava com uma lesão no quadril, que eventualmente o levaria à aposentadoria quatro anos depois, também em Roland Garros.
Por outro lado, o jovem Federer estava disputando seu primeiro Major como principal cabeça de chave, após alcançar o posto de número um do mundo pela primeira vez em fevereiro daquele ano.
Embora os números e o desempenho da temporada apontassem o suíço como favorito para vencer naquele dia na quadra Philippe-Chatrier, principal do complexo parisiense de saibro, o resultado foi surpreendente: Guga venceu com um claro 6/4 em cada set, frustrando as chances de Federer conquistar Roland Garros naquele ano.
Como foi o jogo?
Na autobiografia “Guga, um Brasileiro”, lançada em 2014, o ex-tenista Gustavo Kuerten dedicou alguns parágrafos à sua icônica partida contra Roger Federer. Consciente de que o suíço era o favorito, Kuerten e seu técnico, Larri Passos, desenvolveram uma estratégia para garantir a vitória.
“Eu tinha que usar a astúcia para enfrentar o leão. Precisava usar a cabeça para levar Federer a uma armadilha… Para vencer, eu precisava da colaboração do adversário. Então, eu precisava administrar a partida de maneira a induzi-lo a tomar decisões erradas,” escreveu Kuerten no livro.
Ele também descreveu seu estado mental antes do jogo: “Entrei em quadra nervoso e apreensivo. Minha mente era um turbilhão tentando gerenciar todos os processos necessários para um bom desempenho. Tentava manter a confiança alta para ter alguma chance, e a expectativa baixa para evitar a frustração se algo desse errado. Minha própria mente era um quebra-cabeça, sempre tentando juntar as peças.”
A estratégia foi bem-sucedida. Kuerten quebrou o saque de Federer logo no início. Embora tenha sofrido uma quebra de saque em seguida, a confiança que precisava estava estabelecida. Sacando bem no restante do set e com um grau de acerto impressionante, mesmo que não estivesse no nível dos seus golpes anteriores, ele venceu o set por 6/4.
O alto nível de precisão nos golpes de Guga fez com que Federer começasse a arriscar mais, resultando em algumas decisões erradas ao longo da partida. Sempre que o suíço tentava reagir, Guga respondia com bolas certeiras que neutralizavam o ímpeto do cabeça de chave número um.
“Três anos atrás, o controle do jogo estava completamente em minhas mãos. Independentemente do que acontecesse, eu tinha a convicção de que o resultado era a meu favor e que o jogo era meu. Eu poderia ganhar ou perder, mas a situação estava sempre sob meu controle. Agora, isso já não existia mais,” destacou Guga em sua autobiografia.
Dessa forma, o brasileiro não teve outra alternativa a não ser continuar acertando cada vez mais, forçando os erros do adversário e impedindo-o de usar sua habilidade decisiva. Foi assim que Guga também venceu o segundo set com o mesmo placar de 6/4.
“Eu era guiado por uma frase que não saía da minha cabeça desde o início da partida: ‘Você pode até ser o melhor do mundo, um dos maiores da história, mas este lugar aqui me pertence’,” comentou o catarinense.
No livro, Gustavo Kuerten revela que, no momento da partida, tanto ele quanto Federer tinham a percepção de que o jogo já estava decidido a favor do brasileiro.
“Era uma prova de que o verdadeiro vencedor não é sempre o favorito ou o mais preparado, mas sim aquele que, apesar dos obstáculos, encontra uma solução,” explicou Guga.
O terceiro set também terminou com um 6 a 4, consolidando uma das maiores vitórias de um tenista brasileiro em Roland Garros.
Guga carinhosamente chamou essa vitória de “saci-pererê”, uma referência ao fato de ter vencido com uma condição física comprometida. Ele foi eliminado nas quartas de final pelo argentino David Nalbandian, mas aquele triunfo de 20 anos continua sendo um exemplo de como grandes campeões nunca devem ser subestimados em sua própria casa.