É possível que o treinador de John Isner estivesse apenas exagerando quando, antes daquele Wimbledon de 2010, viu seu jogador tão bem preparado fisicamente que brincou dizendo que ele seria capaz de jogar durante “dez horas”. Essa história foi contada pelo próprio Isner ao site do torneio, horas depois de ele e o francês Nicolas Mahut disputarem os últimos pontos da mais longa partida de tênis da história.
Onze horas e cinco minutos, espalhadas por três dias. Os primeiros pontos foram jogados em 22 de junho de 2010. Os últimos, já na tarde do dia 24. No segundo dia de batalha, Isner e Mahut ficaram em quadra por mais de sete horas. Ao final, um placar inédito, que quebrou todos os recordes da história do tênis: 6-4, 3-6, 6-7(7), 7-6(3) e 70-68.
Duelo contra o 148 do mundo
No papel, o confronto entre John Isner e Nicolas Mahut parecia ser apenas mais um jogo da multitudinária primeira rodada daquele Wimbledon de 2010, jogado no longínquo e apertado Court 18, com capacidade para pouco mais de 700 pessoas.
Isner, então com 25 anos, era o cabeça de chave número 23 em Londres, mais conhecido por sua altura (2,08m) do que por seu currículo extenso. Mahut, por sua vez, era o número 148 do mundo, um francês com certa habilidade para jogar na grama e talento para duplas. Entre os dois, uma arma em comum: o saque.
Apesar da grande diferença de ranking entre eles e do fato de Mahut vir de uma difícil fase de qualificação, os quatro primeiros sets foram bastante equilibrados. Isner começou melhor, o francês venceu os dois parciais seguintes e, no quarto set, Isner empatou novamente. Com tudo isso, já eram 21h07 em Londres, o céu estava escurecendo e o quinto e decisivo set teve que ser adiado para o dia seguinte.
Há 10 anos, Wimbledon não adotava o tie-break no 5.º set, o que significava que o primeiro jogador a vencer dois games consecutivos após o 5-5 avançaria para a próxima rodada. Às 14h05, Isner e Mahut voltaram ao court 18. Às 21h10, o placar marcava 59-59, com todos os recordes já superados.
Por volta das 17h45, a partida ultrapassou as 6 horas e 33 minutos, deixando para trás o duelo entre Fabrice Santoro e Arnauld Clement na 1.ª rodada de Roland Garros em 2004. Mais tarde, aos 50-50, o público, já consciente de estar presenciando um momento histórico, se aglomerava além dos limites do court, subindo em qualquer lugar que permitisse ver o jogo, e levantou-se em uma ovação de pé para os dois jogadores, sem saber que ainda havia muito mais por vir. O placar digital do campo, programado para números menores que 50, acabou falhando, forçando uma noite de trabalho extra para os funcionários da IBM.
Sete horas e cinco minutos depois, sem uma conclusão à vista para o 5.º set – Isner não aproveitaria um match point com o placar em 59-58 -, a falta de luz natural levou o duelo para um terceiro dia. Nesse ponto, o jogo já somava 10 horas completas, e os momentos finais da maratona tinham sido dolorosos para ambos os jogadores, que já mostravam sinais claros de exaustão. Mas da arquibancada ecoava um canto em uníssono: “Queremos mais, queremos mais”.
Mais jogo no dia seguinte
E mais haveria, no dia seguinte. Foram mais 65 minutos de tênis. Aos 69-68, Isner finalmente converteu um match point, apenas o 5.º match point em um 5.º set que já durava mais de oito horas, encerrando o interminável confronto com 70-68.
A história oral dessa batalha seria depois contada pelos protagonistas, incluindo os jogadores e o árbitro de cadeira, o sueco Mohamed Lahyani, que durante o segundo dia optou por não fazer nenhuma pausa, nem mesmo para ir ao banheiro, com receio de perder o foco naquele duelo tão intenso – e que, em determinado momento, até lhe fez perder a voz.
Para os jogadores, o momento mais crítico ocorreu após a segunda interrupção. “Quando paramos no final do segundo dia, pensei que estava sonhando”, disse Isner ao site de Wimbledon. E por “sonho”, o americano não estava usando metáforas, não falava de algo mágico ou fantástico, mas sim de um estado de transição, uma sensação de não estar realmente presente no local onde de fato estava. De sentir um cansaço tão grande que nem conseguia raciocinar: “Estava delirando. Não conseguia acreditar que um jogo assim fosse possível”.